terça-feira, 19 de março de 2013










INTRODUÇÃO:





 As escolas de educação infantil são hoje consideradas espaços nos quais se visa a uma educação plena e não apenas o cuidado das crianças, de caráter puramente assistencialista1. Tal premissa é relativamente nova, pois a Educação Infantil no Brasil só foi reconhecida e institucionalizada a partir da Constituição Federal de 1988, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), publicada em 1996. 





 Após a promulgação desses documentos, aconteceram várias mudanças no processo de ensino das crianças, desde o nascimento até a idade pré-escolar. Assim, a educação infantil passou a ser reconhecida legalmente como a educação básica que tem por "finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade"2. 





 O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI), elaborado em 1998, é um documento oficial do Ministério da Educação3, que orienta a proposta pedagógica de unidades de ensino que atendessem esse público. Nesse documento, há indicativos para subsidiar o trabalho pedagógico realizado na Educação Infantil, com proposições, por exemplo, sobre procedimentos didático-metodológicos a serem adotados pelos professores. Além disso, em 2006, o Ministério da Educação, mais especificamente a Secretaria da Educação Básica4, divulgou os Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil e, em 2009, outro importante material, os Indicadores da Qualidade na Educação Infantil5, que ajudaram traduzir e detalhar esses parâmetros de modo teórico-operacional, para ofertar instrumental de apoio ao trabalho dos educadores.





 A psicologia histórico-cultural tem uma importante contribuição nas práticas educativas na pré-escola. Segundo essa abordagem teórica, o desenvolvimento mental infantil parte de três pressupostos básicos, de acordo com Leontiev6:





 1) a criança se apropria do mundo dos objetos nas interações sociais que estabelece - a apropriação é concebida como característica típica do gênero humano, possibilitada por intermédio da sua participação nas atividades, por meio das relações práticas e verbais; 





2) o ser humano desenvolve suas funções psicológicas superiores - linguagem, memória mediada, raciocínio lógico-matemático, entre outras - ao longo do seu desenvolvimento, formando sistemas cerebrais que permitem novas formações mentais; 





3) a linguagem ocupa lugar de destaque nas formações mentais, pois possibilita à criança adquirir, acumular e repassar os conhecimentos já produzidos pela humanidade, em momentos históricos distintos, implicando na formação dos seus conceitos. 





Nessa compreensão sobre aprendizagem, a atuação do professor é fundamental para o desenvolvimento da criança, uma vez que é no estabelecimento das interações sociais no âmbito do espaço escolar que se dá a mediação entre o universo de conhecimentos produzidos pelo mundo adulto e a formação de conceitos na infância. Para Vygotsky, a mediação, no âmbito educacional, pode ser entendida como um processo interacional entre crianças e professores que leva à formação de conceitos acadêmicos por intermédio da linguagem, em particular, do uso e compartilhamento de diversos códigos linguísticos.



 Na educação infantil, o hábito de contar histórias para crianças desde a tenra idade parece ocupar um papel de destaque nas ações educativas, e deve ser visto como uma estratégia pedagógica importante para a promoção da leitura e, consequentemente, no desenvolvimento educacional infantil. Constituída nas interações sociais, a narrativa aparece como necessidade individual ou coletiva de se registrar acontecimentos histórico-culturais, verdadeiros ou imaginários, permeados de emoções, medos e fantasias. Para Zilberman, tais manifestações podem ser caracterizadas como formas de linguagens presentes nas modalidades orais e escritas, em diferentes gêneros linguísticos, que circulam nas interações sociais em sociedade. 





 Em particular ao universo da literatura infantil, as histórias surgem como possibilidades da criança vivenciar sensações de perda, de busca pelo desconhecido, de tristeza, de desconforto, de amor, raiva, dentre outras, levando-as a experimentar novas descobertas sobre o mundo e sobre elas mesmas. 





Em conformidade com esse posicionamento, entende-se que a criança que entra em contato com as histórias infantis desenvolve seu imaginário, tornando-se, pouco a pouco, um leitor em potencial. Nesse contexto, o mediador terá papel de destaque na promoção da leitura, pois nenhum conhecimento será construído sozinho. 





Cabe, então, aos professores propiciarem oportunidades no espaço escolar para que as crianças possam vivenciar os enredos, as tramas e as fábulas presentes nas produções literárias infantis, tão necessárias para a aquisição de elementos linguísticos que subsidiarão o desenvolvimento mental. Para que isso ocorra, Martins pontua a importância da ação docente nessa atividade, uma vez que é ele quem escolhe a narrativa e o modo como irá apresentá-la. Assim, deve atuar como mediador nesse processo ou, nas palavras da autora, "como sujeito ativo, que compartilha situações significativas de leitura".





 A partir desses apontamentos, percebe-se que existe uma preocupação nas políticas públicas atuais em implementar propostas educacionais preocupadas com o desenvolvimento infantil de crianças com até seis anos de idade, por meio da atuação dos professores que precisam, então, considerar a criança como uma pessoa capaz de desenvolver e aprender em ambientes de estímulo e incentivo a essa interação. Um dos recursos importantes para realizar esse objetivo seria a utilização da leitura de livros infantis na pré-escola. 





Pensando nessas proposições, elaborou-se um projeto de pesquisa e intervenção que pudesse instrumentalizar educadores de uma pré-escola para que eles analisassem de modo crítico os livros infantis disponíveis e se utilizassem desses materiais de maneira mais apropriada, como recursos didático-metodológicos importantes para o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças. 








Ana Claudia Bortolozzi MaiaI; Lucia Pereira LeiteI; Ari Fernando MaiaII

IProfessora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem - Faculdade de Ciências - Unesp - Bauru/SP
IIProfessor do Departamento de Psicologia - Faculdade de Ciências - Unesp - Bauru/SP

segunda-feira, 18 de março de 2013













 Respeitar a autoridade do professor é algo que se aprende em casa. Aliás, o respeito a qualquer pessoa é algo que se aprende em casa. 

É lugar comum que filhos aprendem, em primeiro lugar, pelo exemplo dos pais. A valorização do professor e o respeito ao mesmo por parte de um aluno começa em sua observação de uma postura de respeito e valorização por parte dos pais. 



No entanto, o que vemos nas famílias de nossa sociedade é um descaso dos pais em relação a qualquer tipo de autoridade. Muitos pais não se dão o trabalho de ser autoridade para seus filhos. Alguns pais não dão limites aos seus próprios filhos, não os ensinam a respeitar ninguém, nem a eles próprios como pais. 



O ser humano que cresce em tal família não aceita ordens de ninguém e muito menos limites à sua liberdade. O que leva pais a negligenciarem a educação de seus filhos? Segundo o psiquiatra Içami Tiba, vários podem ser os motivos que impedem pais a serem reais educadores de seus filhos. Entre eles estão o medo de traumatizar os filhos com cobranças de suas obrigações, incapacidade de lidar com reações violentas dos filhos, falta de limites, comodismo, ou o que é ainda pior, incapacidade dos próprios pais de respeitar outras pessoas (TIBA, 2005, p.208s).



 É também lugar comum que a escola não é o primeiro espaço de educação, e sim o segundo. Há pais que preferem delegar à escola a educação de seus filhos. No outro extremo, há aqueles que não reconhecem a autoridade da escola, e acabam se aliando aos seus filhos na delinquência (TIBA, 2005, p.209). Até mesmo o descaso dos pais em relação ao boletim dos filhos é uma demonstração disso. Pais que não levam a sério os indicadores do rendimento escolar de seus filhos não estão preparando seus filhos para suas futuras carreiras profissionais. 



Pais que não se importam com o que acontece na escola não ajudam seus filhos a se preparar para a vida, não ensinam seus filhos a prestar contas, a dar o melhor de si, a respeitar e obedecer aqueles que ocupam uma posição superior, ou seja, não ajudam seus filhos a se preparar para lidar com futuros chefes e maiores responsabilidades (TIBA, 2005, p.211s).



 É assustador o que se vê em noticiários, em vídeos do YouTube e outros canais de mídia sobre o comportamento de alunos em relação aos professores. Vai da violência física à violência moral. Dificilmente pais de filhos que praticam tais ações tomam alguma providência em relação a elas. Normalmente dão desculpas para se isentar de qualquer responsabilidade. No entanto, a educação dos filhos é responsabilidade dos pais. A justiça de Cacoal (RO), em setembro do ano passado, condenou pais de 19 alunos a pagar uma indenização de R$ 15.000 a um professor que foi ridicularizado em uma comunidade criada por esses alunos no site de relacionamentos Orkut. Em resposta ao apelo dos pais, a justiça decretou que “o dever da vigilância é uma incumbência legal dos pais, enquanto responsáveis pelos filhos. Trata-se de um dever legal objetivo do qual não pode o responsável se escusar, com o argumento de ser ‘impossível’ a vigilância dos filhos vinte e quatro horas por dia. Noutras palavras, o argumento trazido pelos apelantes é por demais frágil e não afasta os consectários do descumprimento do dever legal” (g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL766038-6174,00.html). 



 A família pode ser um auxílio ou um obstáculo para a boa inserção do indivíduo no espaço escolar. O indivíduo só aprenderá a levar a sério as regras instituídas na escola se ele tiver sido preparado para isso pela família. É claro que há que se considerar que a família de hoje não é a de antigamente, em que o pai era o provedor e a mãe uma presença educadora constante. Nos dias de hoje, talvez os pais não tenham tanto tempo para os filhos quanto eles gostariam, e talvez o cansaço e a luta do dia-a-dia os impeçam de se inserir de forma mais sistemática e prática na vida de seus filhos. No entanto, a família ainda é a primeira célula da sociedade, e cabe à família preparar as crianças para relacionamentos de todos os tipos, sejam eles de autoridade ou não. Antes de tudo é necessário que a família prepare o filho ou a filha para relacionamentos de respeito. 



 O respeito acontece quando o ser humano se sente respeitado. Mais do que relacionamentos hierárquicos, os relacionamentos de respeito acontecem quando ambos os lados estão dispostos a valorizar e a aprender com o conhecimento do outro. Pais e professores têm muito a ensinar, mas também têm muito a aprender.



 O adulto que se dispõe a aprender com o jovem valoriza-o e o faz perceber que têm uma posição importante no relacionamento. Vivemos numa era em que o aprendizado é constante, não acaba na vida adulta. É a era da educação continuada, e nessa era o jovem tem muito a ensinar. Com certeza o adulto que valoriza o conhecimento do jovem também abre portas para ser valorizado ao compartilhar a sua experiência (TIBA, 2005, p.204ss).